terça-feira, 2 de junho de 2015

Vertigem

Deixou que ele entrasse na sua vida, abriu as portas à paixão e ao desejo. Não sabia, não queria saber se havia futuro. Só o presente contava no tumulto das emoções. Cada dia a aproximava mais do fim, e  o fim seria demasiado doloroso,
O passado esfumaçava-se na voragem do presente. Presente que se transformava em passado a cada minuto.
Tudo os separava e tudo parecia uni-los. A crueldade dos encontros desencontrados. O fim, a coragem para abrir a porta e dizer adeus.
Adeus ao presente e saber que o futuro acalmará o que não se quer acalmar, o que não se quer esquecer. Guardar na memória o perfume perturbador, silencioso, capaz de despertar emoções e sentir-se despedaçada pela ausência.
A porta está ainda aberta, as mãos agarradas mas os dedos soltam-se. "Não posso esquecer.-te. Foi tudo demasiado importante.". "Quero acreditar no destino.".
 Em silêncio ela olha o destino que agora se afasta...

"Adeus"

Sozinha em casa no silêncio e penumbra do anoitecer. O livro aberto à espera que ela lhe pegue, o acaricie e comece a ler. Faltam poucas páginas e isso entristece-a. Vai deixá-lo, separar-se dele, arrumá-lo na prateleira.
Sente um som leve no vidro da janela. Levanta os olhos distraída. Não está ninguém. "Estranho", pensa e ouve de novo o tamborilar dos dedos...leve quase inaudível.
Ninguém...e ainda outra vez o barulho leve e insistente. Abre a janela, do outro lado nem sombra.
Percebe então que era a personagem do livro a dizer-lhe "adeus".

domingo, 31 de maio de 2015

À procura de um título...

Continuar a ser diferente, inventar personagens como Pessoa. Misturar todas, dar-lhes vida e sem remorsos deixá-las livres de cometerem todos os pecados. Contar uma história, parar no momento oportuno e depois recomeçar, recomeçar sempre, esse era o segredo.
O caminho era cheio de curvas, não era possível relembrar tudo, nem mesmo quando encostava a memória ao passado. Perdera a esperança de apaziguar as emoções, os sentimentos; impossível pôr ordem na sua história de vida. Precisava de destrinçar os vários capítulos que se entrelaçavam uns nos outros, onde se perdiam e encontravam, amizades, amores, ódios e paixões.

Queria seguir em frente, por um corredor que não fosse labiríntico, esperando encontrar no fim do percurso uns braços abertos prontos a abraçá-la. Sentar-se por fim na areia e contemplar o horizonte finito e infinito onde o seu espírito se podia perder. E depois dar a mão a alguém e repousar a cabeça no seu ombro. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Queimei-te também

Foi um dia estafante. A agenda sem um único espaço livre; os doentes mais doentes do que o habitual. “É a crise com certeza”, pensou…” "as pessoas estão a ficar mais malucas, desatinadas, sem saber para onde vão, é terrível a desesperança” e “este país é mínimo, um pobre rectângulo, com o mar de um lado e a Espanha do outro. Estou cansado, farto.”
Caminha a passos largos pela avenida. O ar está frio, mas o céu limpo sem uma nuvem. Respira fundo, dentro de pouco tempo estará em casa. Apressa-se, precisa do seu refúgio, do sofá de pele, da música baixa, do whisky sempre da mesma marca.
Abre a porta do apartamento, o cão não vem ao seu encontro, chama-o “Pepsi, Pepsi”, mas não há Pepsi, sente um sobressalto, “alguma coisa aconteceu” pensa. Olha em frente, a porta do escritório está entreaberta, empurra-a com força e pára estupefacto. Vazio, completamente vazio, nada, não há nada, só um envelope branco no chão. Abre-o com medo, reconhece de imediato a letra…e lê.

“Julgavas então que estava tudo acabado. Que cada um ia para seu lado, muito bem-educados e resignados. Não me conhecias e assim descobres com surpresa, penso, a mulher que tinhas a teu lado.

Levei tudo e a esta hora estará tudo queimado. Desapareceram as tuas memórias, as tuas fotografias, os teus discos, os teus livros. Desapareceste tu. Por mim estou aliviada. Queimei-te também”.

terça-feira, 24 de março de 2015

Homens de fala áspera

O comboio passava três vezes. Ouvia-se à distância. Ela contava sempre. Era o último. Saiam como que esquecidos de tudo. Um rebanho paciente cuja vida pouco lhes dera. Vinham de sítios diferentes, mundos que não eram novos. Só diferentes. Muitas vezes procuravam um olhar, talvez um ombro que os consolasse.
Ela procura reter as expressões, ouvir as frases. A fala era áspera. Muitos aconselhavam a não se meter, mas ela precisava entender. Os homens de fala áspera. Tristes como se a vida os atrapalhasse. Mas nada acontecia. Viravam a esquina como se nós não existíssemos.

Nunca falaram connosco e ela nunca os esqueceu.

"Já não dá ...desculpe"


Sabe que não tem muito tempo, mas não se atreve a olhar para o relógio, prefere pensar que o que lhe resta é dela e só dela; do outro lado está ele, separados por uma barreira de vidro, onde por um pequeno orifício podem proferir algumas palavras. “Não chores, tudo vai passar…”
Ela tenta sorrir, dizer-lhe que o amará para sempre, que nada os separará. Mas a voz fica embargada na garganta, e agora soluça convulsivamente. O rosto dele está transtornado pela dor e pela comoção. Consegue ainda esboçar um gesto como se lhe acariciasse os cabelos.
Ouve-se uma sirene, acabou o tempo; ela não consegue levantar-se; ele olha-a, procura um sorriso, uma luz.
Alguém aproxima-se e diz:

“- Já não dá…desculpe.”                         

sexta-feira, 20 de março de 2015

Intolerância, Posse ...Amor?

Tinham-me dito que ele era teimoso que nem um burro, mas que era muito inteligente.
Pensei:  “Não é possível, ou o homem é teimoso e burro, e pronto é uma chatice ter que o aturar, ou o homem é inteligente e vai ser capaz de entender a minha argumentação; claro que tenho que ir bem preparada, parece-me evidente que ele não quer ceder a ninguém, e portanto criou uma barreira à sua volta para não se deixar influenciar.
A tarefa não seria fácil, o assunto era delicado, deixar que a única filha, seguisse a carreira teatral, mas contrariar aquele imenso talento era uma forma de castração e violência, palavras que não poderia usar nunca.
Entrei na sala sem medo.  Olhou-me com altivez e soltou um “sente-se se faz favor. Sei ao que vem, diga-me o que tem a dizer, não tenho tempo a perder.”
“ Não quero que perca tempo, ao  contrário gostaria que ganhasse tempo. De reflexão e de sensibilidade. Ama  a sua filha e tenho a certeza que quer o que pensa ser o melhor para ela…mas o melhor para os nossos filhos não é prendê-los com uma  corrente, como se fossem propriedade nossa e impedi-los de voar.”
“Eu sei o que é melhor para ela.”
“Não, desculpe sabe o que é melhor para si, não para ela.”
“Não quero que ela sofra.”
“Nenhum pai quer que os filhos sofram, mas quer maior sofrimento que matar os sonhos, o talento, impedir o voo livre de alguém que tem o talento  da sua filha. Já pensou como aquilo a que chama amor pode ser sinónimo de posse e crueldade?”
Olhou-me surpreso…“Explique-se um pouco melhor se não se importa".