quinta-feira, 4 de junho de 2015

Caixa de madeira tosca



A caixa estava ali, em cima do banco, indefesa, sozinha. Alguém a esquecera. Vera aproxima-se fascinada, como que hipnotizada. Tem que chegar antes que alguém a veja; segura-a com ambas as mãos, a madeira está envelhecida, a pintura estragada. Talvez tivesse sido dourada em seu tempo. Um fecho e um pequeno cadeado. É leve, o que está dentro não tem peso. Aquela caixa só pode conter segredos.

Deseja chegar a casa e poder abri-la. Sim, são cartas que estão lá dentro. Há um leve cheiro a rosas, suave e feminino. É um pequeno maço de cartas, todas escritas pela mesma pessoa. Uma mulher perdidamente apaixonada. Vera sente-se a entrar na intimidade de dois seres que se amaram, mas que a vida separou cruelmente.

Há um envelope mais pesado, abre-o com cuidado. Lá dentro estão duas fotografias. Numa, o rosto de uma mulher nova de cabelo solto e um sorriso lindo, noutra a mesma mulher, agora de pé, à porta de uma casa. Atrás está escrito:
“Voltei à nossa “casa”, quis fixar a imagem para sempre”. A carta diz mais, muito mais, Vera tem dificuldade em acreditar:
“Pedro meu amor,
Foi aqui que nos amámos. Foi aqui que marcaste o meu destino para sempre. O filho que agora espero, terá o teu nome, é a única forma de assegurar que poderei expressar o meu amor, sem que ninguém perceba ou entenda. Poderei pronunciar o teu nome vezes sem conta, acariciar-te os cabelos, abraçar-te.”

Vera olha detalhadamente a fotografia, reconhece a casa, o alpendre, a varanda. A casa de Sintra onde a Avó Maria gostava de passar férias sozinha, e a verdade imensa, esmagadora, surge-lhe. As lágrimas correm soltas. Fecha a caixa e guarda-a em lugar seguro.
  
No dia seguinte na estação vê um pequeno anúncio:
“A quem achou um caixa de madeira tosca…”
Observa à sua volta e repara num velho senhor de cabelo branco que olha ansioso a multidão. Aproxima-se e pergunta-lhe:
- Perdeu alguma coisa?
Admirado o velho senhor de cabelo branco volta-se, tem uma expressão triste. Vera segura-lhe a mão e diz baixinho:
“Encontrei o seu tesouro, venha comigo.”


Não mexe uma palha

Faz um calor abrasador. Não mexe uma palha.
Uma miúda caminha sozinha pela berma da estrada, nas costas a mochila da escola, a cabeça protegida por um pequeno chapéu de palha. Tem ainda um quilómetro a percorrer até chegar à paragem do autocarro que passa de hora a hora.
Todos os dias a mesma rotina. São mais de vinte minutos a pé, de manhã e ao fim da tarde. Hoje está cansada; a paisagem é seca e desoladora, só uns miseráveis chaparros aqui e ali; gosta mais quando o trigo está crescido e dança ao vento. Mas agora nem vento há. O que lhe vale é gostar da escola, senão não vinha mais.
Os pais moram longe, lá no monte isolado, não sabem ler, nem escrever, mas mesmo assim apoiam a filha. É esperta, viva e gosta de aprender.
De repente sente um barulho de um motor, mas não é o autocarro;  é uma moto pequena que se aproxima e para junto dela.
“Não gosto disto”, pensa, Maria apressa o passo e ouve “Maria, eh Maria, sou o João da tua aula, não tenhas medo”.
Suspira de alívio e volta-se para se certificar que é mesmo o João.
“Que é que tu queres? Nunca passas por aqui…”
“É raro, mas vim ter contigo, com este calor tive medo que te sentisses mal. Vem Maria, dou-te boleia até casa, só te quero ajudar.”
Maria hesita, gosta do João, é bom rapaz mas mesmo assim…
“ Vem Maria, põe este capacete, levo-te a casa.”
E lá vai Maria, sentindo o vento quente na cara, nos braços, nas pernas. Nunca tinha andado de moto.
“É giro", pensa e agarra-se com força ao João que a deixa à porta de casa, afogueada, despenteada e feliz.
Nunca mais vai estar sozinha na paragem do autocarro.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Vertigem

Deixou que ele entrasse na sua vida, abriu as portas à paixão e ao desejo. Não sabia, não queria saber se havia futuro. Só o presente contava no tumulto das emoções. Cada dia a aproximava mais do fim, e  o fim seria demasiado doloroso,
O passado esfumaçava-se na voragem do presente. Presente que se transformava em passado a cada minuto.
Tudo os separava e tudo parecia uni-los. A crueldade dos encontros desencontrados. O fim, a coragem para abrir a porta e dizer adeus.
Adeus ao presente e saber que o futuro acalmará o que não se quer acalmar, o que não se quer esquecer. Guardar na memória o perfume perturbador, silencioso, capaz de despertar emoções e sentir-se despedaçada pela ausência.
A porta está ainda aberta, as mãos agarradas mas os dedos soltam-se. "Não posso esquecer.-te. Foi tudo demasiado importante.". "Quero acreditar no destino.".
 Em silêncio ela olha o destino que agora se afasta...

"Adeus"

Sozinha em casa no silêncio e penumbra do anoitecer. O livro aberto à espera que ela lhe pegue, o acaricie e comece a ler. Faltam poucas páginas e isso entristece-a. Vai deixá-lo, separar-se dele, arrumá-lo na prateleira.
Sente um som leve no vidro da janela. Levanta os olhos distraída. Não está ninguém. "Estranho", pensa e ouve de novo o tamborilar dos dedos...leve quase inaudível.
Ninguém...e ainda outra vez o barulho leve e insistente. Abre a janela, do outro lado nem sombra.
Percebe então que era a personagem do livro a dizer-lhe "adeus".

domingo, 31 de maio de 2015

À procura de um título...

Continuar a ser diferente, inventar personagens como Pessoa. Misturar todas, dar-lhes vida e sem remorsos deixá-las livres de cometerem todos os pecados. Contar uma história, parar no momento oportuno e depois recomeçar, recomeçar sempre, esse era o segredo.
O caminho era cheio de curvas, não era possível relembrar tudo, nem mesmo quando encostava a memória ao passado. Perdera a esperança de apaziguar as emoções, os sentimentos; impossível pôr ordem na sua história de vida. Precisava de destrinçar os vários capítulos que se entrelaçavam uns nos outros, onde se perdiam e encontravam, amizades, amores, ódios e paixões.

Queria seguir em frente, por um corredor que não fosse labiríntico, esperando encontrar no fim do percurso uns braços abertos prontos a abraçá-la. Sentar-se por fim na areia e contemplar o horizonte finito e infinito onde o seu espírito se podia perder. E depois dar a mão a alguém e repousar a cabeça no seu ombro. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Queimei-te também

Foi um dia estafante. A agenda sem um único espaço livre; os doentes mais doentes do que o habitual. “É a crise com certeza”, pensou…” "as pessoas estão a ficar mais malucas, desatinadas, sem saber para onde vão, é terrível a desesperança” e “este país é mínimo, um pobre rectângulo, com o mar de um lado e a Espanha do outro. Estou cansado, farto.”
Caminha a passos largos pela avenida. O ar está frio, mas o céu limpo sem uma nuvem. Respira fundo, dentro de pouco tempo estará em casa. Apressa-se, precisa do seu refúgio, do sofá de pele, da música baixa, do whisky sempre da mesma marca.
Abre a porta do apartamento, o cão não vem ao seu encontro, chama-o “Pepsi, Pepsi”, mas não há Pepsi, sente um sobressalto, “alguma coisa aconteceu” pensa. Olha em frente, a porta do escritório está entreaberta, empurra-a com força e pára estupefacto. Vazio, completamente vazio, nada, não há nada, só um envelope branco no chão. Abre-o com medo, reconhece de imediato a letra…e lê.

“Julgavas então que estava tudo acabado. Que cada um ia para seu lado, muito bem-educados e resignados. Não me conhecias e assim descobres com surpresa, penso, a mulher que tinhas a teu lado.

Levei tudo e a esta hora estará tudo queimado. Desapareceram as tuas memórias, as tuas fotografias, os teus discos, os teus livros. Desapareceste tu. Por mim estou aliviada. Queimei-te também”.

terça-feira, 24 de março de 2015

Homens de fala áspera

O comboio passava três vezes. Ouvia-se à distância. Ela contava sempre. Era o último. Saiam como que esquecidos de tudo. Um rebanho paciente cuja vida pouco lhes dera. Vinham de sítios diferentes, mundos que não eram novos. Só diferentes. Muitas vezes procuravam um olhar, talvez um ombro que os consolasse.
Ela procura reter as expressões, ouvir as frases. A fala era áspera. Muitos aconselhavam a não se meter, mas ela precisava entender. Os homens de fala áspera. Tristes como se a vida os atrapalhasse. Mas nada acontecia. Viravam a esquina como se nós não existíssemos.

Nunca falaram connosco e ela nunca os esqueceu.