quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
Ontem
Foi ontem, mas parece que foi há anos. Ontem, estavas aqui, ontem adormeci nos teus braços, agora só me restam todos os "ontens" para relembrar. O futuro só me trará o passado, só nele permanecerás vivo, hoje os meus braços estão vazios, aperto-os contra mim mas já não te sinto, foi ontem...
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
O som de um barco a bater no pontão
As nuvens escureceram o céu, de repente a noite caiu sobre o lago, tornando-o ainda mais triste.
Sempre olhara o lago com desconfiança, aquela calma escura e o seu fundo onde os segredos apodreciam sem que ninguém quisesse descobri-los.
Nascera à beira do lago, na casa grande e isolada de difícil acesso. Adivinhava mistérios,,, porquê aquele isolamento, porquê aquele lugar triste? Nunca lhe disseram, deixou de perguntar. Habituou-se, e agora estava ali quase sozinha, restava-lhe a velha criada e o velho labrador.
O céu anunciava tempestade, adormeceu a custo, o pensamento povoado por sombras e vultos desconhecidos, estranhos...
De repente um estrondo que a acorda. Acende a luz, corre a cortina, um barco acabara de atracar no pontão. Alguém caminha pelo cais, ouve bater à porta e una voz forte que lhe diz:
"Abre não tenhas medo, sou o teu pai, não tenhas medo, demorei a chegar mas estou aqui. Prometi que voltava..."
Sempre olhara o lago com desconfiança, aquela calma escura e o seu fundo onde os segredos apodreciam sem que ninguém quisesse descobri-los.
Nascera à beira do lago, na casa grande e isolada de difícil acesso. Adivinhava mistérios,,, porquê aquele isolamento, porquê aquele lugar triste? Nunca lhe disseram, deixou de perguntar. Habituou-se, e agora estava ali quase sozinha, restava-lhe a velha criada e o velho labrador.
O céu anunciava tempestade, adormeceu a custo, o pensamento povoado por sombras e vultos desconhecidos, estranhos...
De repente um estrondo que a acorda. Acende a luz, corre a cortina, um barco acabara de atracar no pontão. Alguém caminha pelo cais, ouve bater à porta e una voz forte que lhe diz:
"Abre não tenhas medo, sou o teu pai, não tenhas medo, demorei a chegar mas estou aqui. Prometi que voltava..."
domingo, 29 de setembro de 2019
Solidão
Fecho a porta atrás de mim, nada me prende, nada me faz recuar. Fui feliz um dia, perdido no tempo, perdido no pó das lembranças. Vou, "sem lenço, sem documento", vou, para longe, bem longe... recomeçar? Não, não quero recomeçar, quero afastar-me de tudo aquilo que foi e que não será nunca mais. Deixo as paredes nuas, as árvores secas, os vidros partidos como a minha vida, partida, sem destino, sem fim, sem memória, não quero ter memória, dói demais... Vou até onde o destino me levar. Pararei talvez parra descansar, talvez seja capaz de fechar os olhos e não ver nada, não quero que nada se infiltre para me lembrar que já tive uma vida, que já amei, que já chorei, que já ri e solucei. Deito tudo fora, já não sou eu que caminho, é a minha sombra, o que resta da minha sombra.
terça-feira, 4 de junho de 2019
"Um balde e uma esfregona mais à frente um livro aberto, maltratado"
Na sequência de uma aula de escrita criativa... os desafios da Margarida!
Hoje a inspiração fugiu entre o balde, a esfregona e um livro maltratado, não me resta senão obedecer ou desobedecer.
Vou obedecer à esfregona e condicionar o meu texto a esse objecto com franjas na ponta normalmente sujas e a pingar? Não, não quero. E depois há o balde - detesto a palavra balde, associo-o a um objecto feio de zinco escuro e água turva, Recuso o balde. Resta o livro maltratado, podia dar origem a um desafio pseudo-filosófico, não estou para aí virada.
O respeito incondicional pelo livro? Ou o respeito incondicional pelo autor?
Escolho o autor, selecciono o autor, esqueço-me das palavras, lembro o ritmo, a capacidade de captar a emoção, as lágrimas que caem sem nós querermos. O livro que ficou na biblioteca da nossa memória, o livro que corre ainda nas nossas veias, o livro que é nosso e sempre será, o livro que nos possuiu, que nos manteve fora da nossa realidade, o livro que não queríamos que chegasse ao fim, o livro que nunca será maltratado.
terça-feira, 6 de novembro de 2018
No domínio do surreal
Resolvi mudar de operadora e concentrar tudo numa
só, achei mais fácil e prático sobretudo depois de ter recebido trinta, sim
trinta chamadas num dia a tentar propor qualquer coisa que não me interessava
nada, para dizer com franqueza não sei se me interessava ou não, simplesmente
eu não queria ouvir, detesto decidir este tipo de coisas pelo telefone e só
depois de dar gritos e dizer que não era admissível receber trinta chamadas num
dia e quinze nas primeiras horas do dia seguinte e que iria apresentar uma
reclamação junto da Deco o assunto acalmou.
A decisão estava tomada, primeiro rescindir o
contacto com a operadora das trinta chamadas e passar tudo para a outra. Fui
atendida por homem educado que entendeu a minha reclamação e à laia de desculpa
esfarrapada me diz “Pois é eles no marketing às vezes são um pouco agressivos”
mas analisa cuidadosamente o meu contracto e sugere-me que em vez de rescindir
com eles porque não rescindir com a outra operadora “afinal a senhora tem
connosco televisão, internet, telefone fixo, só falta mesmo o telemóvel”. Era
um facto, respondi-lhe: “só mudo se tiver uma possibilidade de não receber uma
única chamada dos seus amigos do marketing”, “não há problema é só assinar este
documento em que declara que não quer que os seus dados sejam usados para
outros fins que não sejam os estritamente operacionais.” Assinei, “souvent femme varie bien fol est qui s’y fie” bem
dizia François 1er, recebi instruções e
explicações, deu-me um pequeno envelope “a senhora tem aqui o seu novo pin, vai
receber uma comunicação nossa quando tiver que mudar o pin, é muito fácil…” Antevi complicações futuras tendo em vista a
minha relação tempestuosa com máquinas, aparelhos electrónicos, porcas e
parafusos, mas não me pareceu difícil, afinal
só tinha que enfiar no buraquinho microscópico a ponta de um clip e o telefone
abria-se e depois proceder à troca do cartão.
Dias depois recebo a mensagem que no dia 5 a
partir das 9 da noite devia proceder à mudança. Pontualmente e porque o meu
móvel já apresentava sinais de desequilíbrio, respirei fundo, fui buscar o
cartão novo, o clip, abro-o um pouco e
tento enfiar a uma das pontas no tal buraquinho, claro como eu antecipara, o
clip não entrou, o telefone escorregou, a haste do clip partiu-se…uma voz
dentro de mim matraqueava incessantemente “não te deixes vencer, não te deixes
vencer”, repeti a operação e resultado igual, não tinha outra solução, dar-me
por vencida e telefonar para a operadora, depois de se …carregue no 1, se…carregue
no 2, se quiser falar com o operador carregue
no 9, aparece dum planeta onde os homens e mulheres ainda se comunicam por
fala, uma voz masculina, que se
apresenta, “sou o João diga-me como posso ajudá-la”, explico o meu drama,
pergunta se já experimentei o clip, pede-me para tentar mais uma vez, acedi, mas não
resulta, “parece-me que infelizmente não a posso ajudar” “Oh Sr. João não posso
ficar sem telefone e a esta hora não vou a nenhuma loja.” “Pois é eu realmente
gostava de a ajudar mas não vejo como…espere aí tive uma ideia “ a senhora não tem
por acaso brincos para orelhas furadas? “Sr. João não tenho as orelhas furadas…”
“Ah que pena…sabe aquelas hastes que têm uma bolinha na ponta?” Acendeu-se uma
luz, quem sabe… “Deixe-me ver talvez possa encontrar qualquer coisa, pode
esperar um bocadinho”. “Eu espero esteja à vontade, veja lá se encontra…”
Encontrei uns brincos que obviamente nunca tinha usado e lá estava a tal da
haste com a bolinha. “Sr. João, encontrei, agora diga-me lá como devo fazer” “Sim,
sim eu explico, está a ver o buraquinho não está? “Sim, sim estou…”Tem o
telefone em cima duma mesa não tem?” “Sim na mesa da sala de jantar.” “Então vamos
lá, enfie a haste no buraquinho, está a ver, consegue enfiar?” “Sim consigo,
então faça força, carregue na bolinha, está a carregar na bolinha?” “Estou a carregar
na bolinha” “Faça força” e de repente “miracolo, miracolo” salta cá para fora
uma minúscula espécie de gaveta e o Sr.João todo contente dá-me as instruções
finais.
Sr. João merece um prémio, mas só com João não
chego lá, mas mesmo assim muito obrigada!
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Realidade e ficção
Escrever sem que a nossa realidade interfira na escrita,
diria missão quase impossível… como podemos falar com convicção do que não
conhecemos, do que nunca vimos, das emoções que não sentimos, das dores que não
tivemos.
Natália Correia diz num poema “Nascitura estava… eu sou dos
Açores naquilo que tenho de basalto e flores…mas nós só nascemos quando somos
nós que temos as dores…”
Sim, só quando nós temos as dores, sejam elas quais forem, arranhões
ligeiros, feridas profundas, queimaduras graves, podemos levá-las para os
nossos personagens fictícios e dar-lhes as dores que nós sentimos. Aí a
realidade torna-se ficção, ficção credível.
Não gosto da ficção quando ela nos leva para o caminho do
alienamento porque nada está lá, nem a verdade, nem a ficção verdadeira.
Tudo o que escrevemos a sério, passa por nós, mesmo que não
sejamos sérios, somente verdadeiros na nossa realidade. A ficção pura e simples,
o uso das palavras para efeitos sonoros ou oníricos, só em doses reduzidas, as
palavras dos outros têm que provocar um
estremecimento, um sorriso, uma lágrima, sem esse eco a ficção é puro
divertimento “divertissement”. Então divirto-me doutra maneira!
segunda-feira, 26 de março de 2018
Variações sobre o mesmo tema
“O teu sorriso apagava a luz do dia”
Aproximei-me,
estavas de costas e não me vistes, quando sentiste as minhas mãos nos teus
ombros, voltaste-te e o teu sorriso apagava a luz do dia.
Abracei-te com
tanta força que espantado perguntaste:
- Aconteceu alguma
coisa?
- Sim, encontrei-te
e reencontrei o teu sorriso e com ele o sol, a esperança que pensava
adormecida.”
Permanecíamos
calados, nada podíamos acrescentar. Os corpos unidos como se nada jamais os
pudesse separar. As palavras não podiam traduzir a emoção, não diriam mais que
a força daquele abraço.
Caminhámos na areia
branca onde o tempo começava a marcar o futuro, o nosso futuro.
Esperava a chegada
do barco com ansiedade, o meu sonho que um dia levaste. Tinham passados anos,
anos de espera, incerteza, desespero…mas agarrava-me à esperança, sabendo que
se a largasse nunca mais encontraria forças para continuar. O vazio tomaria
conta de mim e o sonho ter-se-ia partido em mil pedaços.
Acarinhei a ilusão,
sequei as lágrimas e hoje chegas trazendo de volta o teu sorriso que apagava a
luz do dia…
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